Aldeotas!!!

por Bruna Lança

    Aldeotas, a peça em cartaz no teatro Tuca desde 15/09 que vai at 25/11 é escrita por Gero Camilo e interpretada por este. O cantor, compositor, ator e poeta cearense estudou na Escola de Arte Dramática da USP.A peça conta a história de dois amigos de infância, Levi e Elias, interpretados por Gero Camilo e Caco Ciocler, que se reencontram em uma cidade chamada Coti das Fuças. O interessante é que o reencontro se passa apenas na memória de um dos amigos.As referências de tempo e espaço são eliminadas pela força poética e memorialista da peça. Através das recordações se tenta resgatar as experiências de vidas tão importantes, mas que acabam esquecidas devido a outras ocupações diárias.As apresentações são feitas no tucarena, com duração de 100 minutos, as sextas e sábados ás 21h e aos domingos ás 19h. Aos sábados a entrada é 50 reais, as sextas e domingos 40 reais; para PUC – SP 10 reais. Gero Camilo

Ocupação da Reitoria!

pela editoria “1” do Sem Fio

Claro que o Sem Fio é um blog que fala sobre cultura e sociedade. Contudo, ele vem mostrando o seu lado político de forma natural através da nova editoria criada de forma improvisada chamada “1”.

Para continuar esse lado político espontânea, o Sem Fio apoia de forma total e irrestrita a ocupação da reitoria da PUC-SP, ocorrida ontem a noite.

Aqui abaixo, para quem quiser ler, está o manifesto dos estudantes ocupados na reitoria.

MANIFESTO DOS ESTUDANTES OCUPADOS NA REITORIA DA PUC-SP

 

Ocupamos a Reitoria nesta noite como forma de protesto pela maneira com a qual o Redesenho Institucional, demissões e bolsas vem sendo tratadas nesta universidade. O verticalismo burocrático tem mantido toda a comunidade puquiana à margem de um dos mais importantes processos pelo qual essa universidade já passou. Nós, os estudantes, seguidamente pagamos o pato das políticas desastradas da gerontocracia universitária. Basta! Não aceitaremos a intervenção da tropa de choque neste ato político, como é costume dos poderosos da burocracia universitária. Basta! Não ficaremos calados, conforme é a vontade dos de cima. Basta! Democracia se faz de forma direta, sem conselhos de fantoches, sorrisos e bocas. Basta de laboratórios picaretas e mensalidades altas. Realmente, do alto do castelo, a vista é linda.

 

Quem sabe o que é o Redesenho? Estamos aqui para debater com cada estudante, de portas abertas, para construir opiniões e consensos. Sim, a Reitoria da PUC-SP não é mais um claustro, à mando da Santíssima Trindade (Pai, Cúria, Bradesco Santo).

 

O movimento estudantil da PUC não consentirá com tais medidas arbitrárias. Propomos pelo momento:

 

– Só haverá negociação mediante o resultado das assembléias de curso e com a garantia de não haver nenhuma forma de repressão tanto pela Graber quanto pela polícia.

– Anulação do Processo de Redesenho Institucional. Por um processo realmente democrático, construído pela comunidade.

– Pela revogação da atual política de bolsas que impede os primeiranistas de terem acesso à universidade. Queremos bolsas que atendam as reais necessidades dos estudantes e que a abertura deste novo edital se dê mediante à participação dos estudantes.

– Nenhuma demissão de professores e funcionários. Chega de demissões!

– Nenhuma punição aos estudantes ocupados. Choque então, nem pensar.

– Solidariedade as demais ocupações em todo o Brasil. A nossa luta é uma só!

Amanhã acontecerão assembléias por toda a universidade para discutir as demandas especificas de cada curso frente ao processo de Redesenho.

NÃO PASSARÃO”

Para saber mais sobre a ocupação da reitoria, visite o seu blog: ocupapuc.wordpress.com

“Sim!” Yoko

por Bruno Huberman

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John Lennon e Yoko Ono durante a campanha contra a Guerra do Vietnã

Durante as gravações do derradeiro álbum Lei It Be (1970), John e o produtor do disco Allen Klein, alteraram algumas músicas. Mudaram a velocidade de algumas canções, introduziram frases cômicas de apresentação e acrescentaram coros. Na faixa The long and winding road, colocaram 50 músicos de orquestra, criando uma massa sonora, com arpas e trombetas. Essa foi a gota d’água para Paul, que passou a produzir o seu primeiro disco solo na mesma gravadora, escondido de todos, usando o pseudônimo de Billy Martin, em sessões secretas.

Sim, estamos falando de John Lennon e Paul McCartney, ou seja, The Beatles. Esse foi o motivo que separou de forma definitiva a maior banda de rock de todos os tempos. O desentendimento de Paul e John havia começado em 1968 durante as gravações do White Album, portanto antes de John Lennon subir uma escadaria e através da lupa que estava em seu topo ler a palavra “Yes” (“sim”), acontecimento esse que determinou o beatle conhecer a artista de tal obra: Yoko Ono, em 1969.

Após essa digressão pela história da música, podemos constatar que a artista plástica não é a causa do que lhe é atribuída à fama: o fim dos The Beatles. E vale ressaltar que antes de John Lennon, Yoko Ono já era Yoko Ono, pois, afinal, não é qualquer japonesa de Tóquio que consegue uma exposição individual em um dos maiores museus de Nova York com apenas 36 anos de idade.

Agora com 74 anos, Yoko Ono – uma das poucas mulheres com proeminência no meio artístico experimental e vanguardista dentro do contexto internacional – retoma a exposição que mudou sua vida: “Ceiling Paiting”. A obra faz parte da mostra retrospectiva da carreira de Yoko que o Centro Cultural Banco do Brasil inaugura no próximo dia 11, a sua segunda em território nacional (a primeira foi em 1998, em Brasília). A mostra faz parte de uma série de realizações que o CCBB tem feito em homenagem ao centenário da imigração japonesa ao Brasil.

A exposição é um desdobramento de outra, Horizontal Memories, e será composta por cerca de 80 obras entre objetos, fotos, filmes, música e instalações. Devido ao seu tamanho e diversidade, o projeto extrapolou o espaço que lhe foi disponível e assim passará a ocupar os quatro andares do CCBB.

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A artista apresentará de graça toda sua obra

Uma noite no Municipal

Palco de tantas apresentações tão importantes, o Theatro Municipal de São Paulo terá como anfitriã no próximo dia 8 a viúva de Lennon.

“Uma Noite com Yoko”, espetáculo de aproximadamente 60 minutos, faz uso de projeções e música para abordar diferentes momentos de sua vida e foi criado especialmente para sua vinda a São Paulo, portanto é inédito no mundo inteiro.

“Uma Noite com Yoko”: Theatro Municipal (pça. Ramos de Azevedo, s/nº, região central, tel. 3222-8698). 1580 lugares. Qui: 21h. R$ 60 a R$ 200 (p/ estudantes: R$ 30 a R$ 100). Ingr. p/ tel. 6846-6000 ou via Ticketmaster.

Exposição: Centro Cultural Banco do Brasil (rua Álvares Penteado, 112, região central, tel. 3113-3651/3652). 10 de novembro a 3 de fevereiro de 2008. Entrada franca.

Amor exagerado é tema de “O Passado”

 

 Por Jaqueline Ogliari

O mais ambicioso livro do argentino Alan Pauls, O Passado, finalmente chega às telas do cinema na direção de Hector Babenco, e seu filme é o mais esperado pelos espectadores da 31ª Mostra Internacional de Cinema. Pauls conta em terceira pessoa a trajetória de Rímini após sua separação, porém a sombra da ex-mulher Sofía ainda o atormenta e se mantém constante em sua vida.

 O que mais assustou Pauls é alguém querer adaptar seu livro para o cinema. “É inadaptável”, diz o autor a Babenco, quando este foi entrevistado pelo portal de notícias G1. Mas o diretor resolveu aceitar o desafio e produzir O Passado, protagonizado por Gael García Bernal, presente na Mostra deste ano.

Alan Pauls tem seus motivos para considerar sua obra inadaptável. O livro é repleto de digressões, referências psicanalíticas a Freud e Barthes, complicadas ao passar para o cinema, e Babenco foi criticado por não definir ao certo o que se passava na história. O momento da morte de Véra, segunda mulher de Rímini, por exemplo, ficou meio sem explicação. Mas, apesar das críticas, O Passado tem grande aceitação do público, e está em cartaz em todos os cinemas do país.

O nome do livro, O Passado, é uma explicação ao amor exagerado de Sofía por Rímini que, mesmo após a separação amigável, não consegue deixar o ex-marido em paz. Como explica o próprio autor, em entrevista a Folha de S. Paulo, “O Passado é, por definição, o que nunca termina de passar”. E isso justifica os graves problemas pelos quais Rímini sofre; a presença constante de Sofía – seu passado – torna-se um obstáculo para que ele siga a sua vida.

Pauls elabora uma tese sobre o amor, de que ele não há se não envolve uma dimensão de pesadelo. E Babenco procura preservar no filme a “alma do livro”, a “existência fantasmagórica” dos amantes. Essa existência significa que o amor não acaba, que as pessoas continuam amando aquelas que já amaram, apesar de terem outros amores. O Passado recebeu em 2003 o prestigioso prêmio Herralde, concedido para livros de ficção em língua espanhola.

 O PASSADO
Autor:  PAULS, ALAN
Tradutor:  BAPTISTA, JOSELY VIANNA
Editora: COSAC NAIFY

Preço: R$ 55,00

TIM Festival

por Marianna Sanfelicio

 

          De todos os lugares onde se podia estar em São Paulo no domingo, o mais lotado era com certeza a Arena Skol Anhembi. A Arena Skol foi palco dos shows mais comentados e esperados do TIM Festival, evento anual que acontece desde 2003. As seis atrações do dia 28 atraíram mais de 23 mil pessoas, que tentavam a todo custo ficar o mais próximo possível do palco. Algumas pessoas só não conseguiram chegar ainda mais perto por causa da área VIP, colocada entre o público da pista e os cantores. A área VIP, aliás, era o único local onde havia lugares para se sentar. O resto do público foi obrigado a se sentar no chão, no melhor estilo Woodstock. O grande número de pessoas presentes causou o esgotamento de vários produtos nos bares, e ainda durante o show do Arctic Monkeys já não havia mais água ou refrigerantes. Os bares do lado direito do palco sofreram com a falta de pastéis, yakissoba e hambúrgueres. Os atendentes pareciam estar mais nervosos que os próprios consumidores, a quem só restavam cervejas e energéticos. O problema só foi resolvido pouco tempo antes do início do show do The Killers.

          Os shows estavam marcados para começar às 18h30, mas já havia muitas pessoas na Arena Skol antes mesmo das 15h. A primeira banda a se apresentar foi a norte americana Spank Rock, seguida pelo Hot chip, cujo show teve uma parada de 15 minutos por problemas técnicos. Parada mais que festejada por mim, que tive tempo extra para procurar um banheiro. Má sinalização e falta de pessoas a quem perguntar eram frequentes, fora seguranças que davam descaradamente em cima de qualquer coisa com ou sem peitos que passasse por eles. Apesar da terrível organização, a festa foi um sucesso, e não há do que reclamar quando se trata das performances das bandas. Björk levantou a platéia, e vestiu uma roupa que para muitas pessoas lembrou a de Nossa Senhora Aparecida misturada com temas psicodélicos. Para outras no entanto estava mais parecida com uma arara.

 

Juliette Lewis

 

          A pausa agendada para acontecer entre o show de Björk e Juliette and the Licks não durou mais que a pausa que aconteceu entre as outras bandas. Juliette Lewis foi um show à parte, totalmente integrada com os músicos de sua banda, com o palco e com o público. A crítica pode ter odiado, mas quem viu o show com certeza ficou com gostinho de “quero mais”. Vozes masculinas e femininas podiam ser ouvidas no meio da platéia, gritando “Juliette, me come!”, quando a cantora e atriz passou a língua nos lábios. O show do Arctic Monkeys, o mais esperado da noite segundo o blog do TIM Festival, não foi tão empolgante quanto poderia ser. A atitude blasè do grupo inglês não agradou tanto os fãs brasileiros, e o fato de o show acontecer entre os super animados The Killers e Juliette and the Licks não ajudou em nada. Poderiam também ter feito um show mais longo, apesar do grande atraso – o público não ia se importar. Apesar dos pedidos insistentes da platéia para que tocassem Mardy Bum, 505 e when the Sun Goes Down, não houve nenhum bis.

 

 

          The Killers entrou no palco para fechar a noite, às três da manhã. Apesar do adiantado da hora e da falta de organização, a maior parte do público continuava lá. A banda tocou até as 4h, com uma platéia empolgada ao som de Mr. Brightside, All These Things That I`ve Done, For Reasons Unknown, Bling, Jenny Was a Friend of Mine e outros sucessos. O auge ficou por conta de Somebody Told Me, conhecida por todos no Brasil por ter se tornado tema de novela. Para quem gosta das bandas, foi uma experiência e tanto.

 

O pequeno mártir

por Aline Khoury

Rompimento de paradigmas, liberdade criativa e os demais brados entoados pelos artistas pós-modernos têm cada vez mais ultrapassado as fronteiras da inovação até os limites do nonsense – partindo da rebeldia, quebra da tradição ou surrealismo para a polêmica pela simples polêmica. A própria arte propositalmente sem sentido passa a adquirir um: a mera reação de choque. Se você não entende como um pedaço de tela com uma tosca mancha (algo como aquilo que você produzia no pré) pode simbolizar toda a psique neurótica do ser humano capitalista, certamente você seria taxado de insensível ou “intelectualmente raso” pelos apreciadores das abstrações artísticas contemporâneas.

Pois um desses neo-artistas considerou uma verdadeira vanguarda provocar a fome ao vivo. Na bienal de Costa-Rica de Arte em agosto, Guillermo Vargas Habacuc criou uma instalação intitulada “Exposición N° 1”. Ao som do hino sandinista tocado ao contrário, os visitantes se deparavam com uma frase na parede (“eres lo que lees” – és o que lês) cujas letras eram formadas por ração canina. Poucos metros adiante, eram surpreendidos pela seção principal: um cão amarrado à parede por uma corda, definhando de sede e inanição. O animal teria sido capturado nas ruas de Manágua (capital da Nicarágua) especificamente para ser privado de qualquer alimento, ou auxílio veterinário durante aproximadamente dez dias, a fim de que já apresentasse o grau de doença e magreza almejados pelo autor. Apesar dos pedidos de diversos espectadores para que fosse solto e tratado, o cão (batizado de Natividad) permaneceu amarrado até o segundo dia de exposição, quando veio a morrer de fome diante do público.

A aprovação do autor pelos seletores da edição 2008 da Bienal Centroamericana de Honduras foi o estopim para o furor na internet, onde além do linchamento por milhares de blogs em diversos cantos do mundo circula também uma petição para que tal indicação seja revista.

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Em meio à polêmica que já previa causar, Habacuc alega: “O importante para mim era constatar a hipocrisia alheia. Um animal torna-se foco de atenção quando o ponho em um local onde pessoas esperam ver arte, mas não quando está no meio da rua morto de fome”. Concluiu ainda: “O cachorro está mais vivo do que nunca porque segue dando o que falar em muitos países”.

Foi assim que Natividad (nome que remete a nascimento) teve sua sina determinada por um outro nome – o da “Arte”.

 

 

O santo guerreiro e o herói desajustado

por Aline Khoury

Depois de mastigar por 90 minutos folhas de alface caídas em pleno chão da Praça da República, o jovem ator Rodrigo Ramos se justifica: “Assim é o clima mágico da São Jorge, ele te envolve de um jeito que te faz acreditar que por aqueles 90 minutos você realmente se tornou um cavalo! Mergulho na apresentação de tal maneira que seria capaz de lamber aquele chão sem nem me dar conta”. Desde 15 de setembro, o talento de 13 ousados atores como Rodrigo tem surpreendido e encantado os transeuntesdo centro promovendo finais de semana um tanto quanto reflexivos. Em uma combinação carnavalesca entre um grande clássico da literatura universal e a tradição popular brasileira, o primeiro espetáculo de rua da Cia São Jorge de Variedades parece ter correspondido aos objetivos de seu mais novo diretor Rogério Tarifa – “Desde o início procurávamos incitar uma reflexão sobre o sentido do herói nas metrópoles atuais que fosse acima de tudo acessível a qualquer espectador comum”. Fruto da fusão de quatro companhias da Escola de Comunicação e Artes da USP em 1994 (motivada principalmente por dificuldades financeiras), o grupo tem conquistado cada vez mais espaço no cenário alternativo paulistano.
Após longa caminhada, o guerreiro romântico e solitário finalmente chega à metrópole onde tem uma miragem de sua amada Dulcinéia – iniciando, assim, uma dura batalha para conquistá-la. Seus nobres ideais, porém, entram em constante conflito com as regras da cidade grande. Não se adaptando ao caos contemporâneo, o guerreiro vê-se perdido e cada vez mais impotente. Até que o santo popular São Jorge vem com sua história de luta resgatá-lo, revelando a importância do sentido da coletividade que persiste nas “ilhas” de resistência que ainda pulsam no cenário metropolitano.

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Um dos aspectos mais interessantes é a originalidade da produção com um ar proposital de improvisação: “Nem sei estimar ao certo o custo para produzir porque quase todos os acessórios já eram dos próprios atores ou foram reciclados por nós mesmos”. Adornado apenas por cartolinas, panos velhos e muita purpurina, o cenário é composto de duas estruturas de ferro com rodas que permitem encenar carros alegóricos de escolas de samba (principais inspirações do roteiro). Vale ressaltar a empolgação da trilha sonora, que é feita ao vivo com chocalhos e pandeiros caseiros, uma bateria de latões e uma guitarra amplificada.

De volta aos palcos cobertos em dezembro, o grupo pretende retornar ao Teatro de Arena Eugênio Kusnet (R.Teodoro Baima,94-Centro) e ao VentoForte (R.Brigadeiro Haroldo Veloso, 150, Itaim), permanecendo com sua tradicional entrada franca. A direção promete também promover ensaios das peças abertos ao público, repetindo seu feito inovador de 2001.

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Para o futuro, as expectativas são ainda maiores – as quatro companhias têm conquistado tantos adeptos que planejam transformar o grupo num movimento: “A platéia tem mostrado que identifica em nossas performances um estilo de vida próprio, uma nova forma de encarar o mundo ao redor” orgulha-se Tarifa. Pelas bênçãos de São Jorge ou não, o certo é que a companhia já representa uma revolução na rotina daqueles que acabam se tornando estrelas por um dia: os moradores de rua, que sempre caem na cena com a maior empolgação.

O Haiti é aqui

 

por Bruno Huberman

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Soldado brasileiro em ação no Haiti

“O Rio de Janeiro é pior do que o Haiti”, declarou o Coronel Cunha Mattos, carioca de nascença e que esteve no país caribenho entre dezembro de 2005 e junho de 2006 chefiando o Setor de Comunicação Social da Força de Paz da ONU no Haiti. Ao longo da entrevista na sede da Oboré para o terceiro encontro do atual módulo do Projeto Repórter do Futuro sobre situações de conflito armado, o coronel, que atualmente dirige a Seção de Informações Públicas do Centro de Comunicação Social do Exército, sempre falando na primeira pessoa do plural, mostrou-se bastante disposto a discutir a delicada condição dos morros cariocas.

A situação da capital fluminense é pior do que a haitiana por alguns motivos, segundo Cunha Mattos. A começar pela geografia: as favelas cariocas geralmente estão situadas em morros – o que também é uma grande vantagem tático-militar para os traficantes – enquanto as haitianas são planas.

No Rio de Janeiro há um interesse financeiro em manter o território por causa do das drogas, assim o combate é constante e os interesses econômicos estão atrelados aos territoriais. No Haiti, embora haja tráfico de drogas, ele é muito pequeno, pois não há comprador e a ilha serve mais como rota de tráfico para os Estados Unidos. As favelas haitianas servem de abrigo para seqüestradores. Uma vez que o cativeiro caiu, não é muito difícil ver o seqüestrador abandonar o território com ou sem o seqüestrado e o combate ocorre apenas por iniciativa do exército.

O armamento utilizado nos dois locais também é muito diferente. O usado contra os soldados brasileiros é bastante antigo e o coquetel molotov, arma incendiária caseira, é o preferido dos haitianos. Já na guerra contra o Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) e cia, não é muito difícil encontrar fuzis, granadas e metralhadoras de calibre geralmente maior do que os usados pelos policiais.

Uma das poucas semelhanças entre os dois locais são as facções criminosas: em ambas não há organização. Na capital fluminense, é muito comum um traficante matar o chefe do morro vizinho. Às vezes, na própria favela também há uma grande disputa na chefia. O próprio Comando Vermelho, outrora tão temido, já está se fragmentando. No Haiti, principalmente em Porto Príncipe, a capital, a situação não é muito diferente. Os criminosos não se unem para se defender dos exércitos estrangeiros, é cada um por si, assim a ação da ONU fica facilitada.

 

O exército e o morro

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Favela da Maré (RJ)

A situação dos morros cariocas parece estar cada vez pior. Embora, segundo Cunha Mattos, o Bope possa ser uma das melhores policias especiais do mundo, não parece haver nada que possa controlar as favelas. Muitas mortes ocorrem, vide o filme Tropa de Elite e a ação do Batalhão no último dia 19, em que duas pessoas morreram na Cidade de Deus, e nada muda.

A única saída aparente seria a atuação do exército nas favelas, e isso já aconteceu algumas vezes. Não é muito difícil se recordar dos tanques militares voltados para os morros durante a Eco Rio 92. Porém, todas essas ações foram feitas sob a lei de manutenção da ordem pública, e ocorrem esporadicamente em situações excepcionais.

O recente caso do roubo de 10 fuzis e uma pistola no Estabelecimento Central de Transportes (ECT), no bairro de São Cristóvão (zona norte), no dia 3 de março, mostrou a atual incapacidade do exército de atuar no Rio. Por falta de amparo legal, os militares não puderam revistar os barracos para encontrar os fuzis. Como solução, eles tomaram 12 favelas da capital, entre eles o Complexo do Alemão e a Maré, entre os dias 3 e 14 de março, diminuíram bruscamente o tráfico de drogas e os fuzis acabaram aparecendo, após um acordo com o Comando Vermelho, que assumiu a autoria do roubo.

A falta de jurisdição legal, aparentemente, é o maior empecilho para a presença dos soldados nas favelas do Rio de Janeiro. Segundo o coronel, o exército “tem capacidade tática, mas falta capacidade jurídica”. Há também uma dificuldade política para atuar sobre a polícia, pois, ela seria a força que daria conta da situação, e ao convocar o exército, automaticamente se está menosprezando a força policial.

Caso esse impedimento jurídico fosse vencido, teria que ser feito um treinamento para os militares atuarem como polícia, nos moldes do feito para o Haiti, já que a situação daqui é pior do que a de lá, como disse o chefe da Seção de Informações Públicas do Exército. O exército também teria que se adaptar para diminuir os efeitos colaterais de suas ações, e assim garantir o princípio fundamental da humanidade, que é o direito à vida.

Uma vez que o exército tomar a favela, não pode simplesmente ir embora, segundo disse o coronel. Ele tem que se estabelecer no morro e afiançar que a situação se manterá controlada. E, quem sabe, com o mesmo jeitinho brasileiro de ser e com a mesma cordialidade que o exército tem apresentado no Haiti e que tem dado certo, os militares poderiam realizar ações sociais de uma forma sistemática, tal qual no Haiti, e tranqüilizar a conturbada situação em que o Rio de Janeiro se encontra.

O Fino de guerra

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 O repórter Carlos Fino, autor do livro A Guerra Ao Vivo

 

Por Bruno Huberman

 

Lascas de crânio. Restos de cérebro. Poças de sangue. Balas e bombas. Essa é a descrição superficial do cenário que o repórter de guerra é obrigado a conviver enquanto faz a cobertura dos fatos. Para esclarecer as funções e os objetivos dessa romântica figura nessa terrível situação, foi convidado para o 2º encontro do atual módulo do Projeto Repórter do Futuro sobre situações em conflito armado, o homem que furou a CNN no início da Guerra do Iraque: Carlos Fino, repórter da portuguesa RTP (Rádio e Televisão Portuguesa).

            “Sou um repórter de guerra acidental”, disse logo no início da entrevista. Na época em que era um correspondente internacional da RTP em Moscou, Fino sentiu-se impelido a cobrir os conflitos que estavam ocorrendo na então URSS e acabou virando um repórter de guerra, embora, segundo o próprio, estivesse totalmente despreparado, porém não se arrepende.

            Fino se mostrou bastante convicto em certos assuntos mais delicados. Ele é totalmente a favor da criação de um estatuto que permita os jornalistas circularem nas regiões em guerra com imunidade, pois a informação é algo vital para o desenrolar da guerra, embora essa seja altamente espetacularizada. Os meios de comunicação informam o que lhes convém, censuram muitas notícias e chegam até desinformar (fabricando notícias).

            O português também é a favor de algo que o representante do CICV (Comitê Internacional da Cruz Vermelha), João Paulo Charleaux, disse ser contra: uma identificação própria para profissionais de imprensa. Para o ex-repórter, esses profissionais deveriam usar uma cruz azul ou branca como identificação, que seria apenas mais um alvo fácil para os guerrilheiros, segundo Charleaux. Atualmente, os jornalistas apenas usam coletes a prova de bala e os carros, que não são blindados, circulam apenas com os escritos “PRESS” ou “TV” como medida de segurança.

             O repórter

            O jornalista não deve se deixar manipular. Sempre deve estudar e manter-se informado. Sempre ser objetivo e manter uma certa distância em relação aos fatos da realidade. Esses são os mandamentos de um bom repórter de guerra, segundo Carlos Fino. Um bom jornalista deve sempre tentar checar os dois lados da notícia, caso possível, ainda mais numa guerra. É muito difícil seguir a cartilha enquanto se está rodeado por uma tribo de repórteres extremamente individualistas e no meio de dois lados nada amistosos.

            Um repórter independente sempre é eliminado. Em uma guerra, querendo ou não, ele tem que escolher um lado para se proteger. O outro lado sempre irá criar-lhe imposições e dificuldades, não importa o que se faça. Fino, durante a guerra do Iraque, entrou credenciado pelo governo local, porém sempre manteve um bom distanciamento, sendo o máximo imparcial para ficar com uma boa imagem, pois ela é vital na hora de colher uma informação preciosa. Ótimo exemplo de como não ser um repórter de guerra são os americanos, pois em sua maioria eles chegam junto dos soldados ianques e nunca buscam outra informação a não ser a divulgada pelo seu governo.

            A relação repórter-fonte sempre será extremamente ambígua, às vezes até meio esquizofrênica. Uma fonte permanente para o jornalista sempre será propaganda local. No caso do Iraque, os órgãos do Estado iam atrás dos jornalistas para lhes mostrarem as atrocidades que os americanos faziam, às vezes até pagavam para serem entrevistados. Do cotidiano de uma guerra sempre vão saltando pautas, não há como escapar. Assim, a diferença de um repórter para o outro passa ser o feeling, ou seja, estar no local certo na hora certa.

            Uma ilusão desmistificada pelo jornalista português foi a do repórter de hotel. Este é aquele que fica dentro do seu quarto, consultando os principais sites de notícias, assistindo aos maiores canais de televisão, portanto não há problema de fonte, e dessa maneira produz suas pobres matérias jornalísticas. Segundo Fino, sem o repórter no local, sem ele correndo atrás de fontes exclusivas não há cobertura e essa informação é insubstituível. Para tanto, seria mais fácil os meios de comunicação contratarem agências de notícias com suas reportagens frias e teoricamente imparciais – algo que muitos meios brasileiros tem feito, infelizmente.

Desvendando a Cruz Vermelha

Comitê Internacional da Cruz Vermelha

por Bruno Huberman

Tudo começou no longínquo ano de 1859, no dia em que o suíço Nobel da Paz Henri Dunant estava indo se encontrar com Napoleão III. Quando ele se deparou com as vítimas da Batalha de Solferino e decidiu ajudá-las, o primeiro passo já estava dado. Nesses quase 150 anos que separam o acontecimento descrito acima e o encontro desse último sábado, 06 de outubro, nas dependências da Oboré, que iniciou o Projeto Repórter do Futuro, muita coisa aconteceu: o CICV (Comitê Internacional da Cruz Vermelha) foi criado por Henri Dunant, foram assinadas quatro Convenções de Genebra que formam o núcleo duro do DIH (Direito Internacional Humanitário), duas Guerras Mundiais e dezenas de outros conflitos.

Para desvendar os mistérios dessa seita secreta que é o CICV, foi convidado o assessor de comunicação da Cruz Vermelha para Brasil, Chile, Uruguai, Paraguai e Argentina, o jornalista de formação João Paulo Charleaux.

O convidado mostrou muito do que o CICV já fez para o mundo. As Mensagens Cruz Vermelha ajudam os presos a se comunicarem com suas famílias ao redor do globo. Apenas em 2006, foram 630 mil. Em Guantánamo, onde a Cruz Vermelha é a única a ter permissão de entrada, houve ajuda na definição do status jurídico dos presos para que eles pudessem ter um julgamento justo. Em Darfur, há uma distribuição de produtos agrícolas e a presença de veterinários com o intuito de melhorar as situação de vida e assim diminuir número de refugiados e deslocados. No Iraque, mesmo com grandes dificuldades como a morte de cinco colaboradores desde 2003, há uma grande atenção médica à população e um esforço para a restauração do saneamento básico no país. No sudeste asiático, principalmente no Sri-Lanka, há um movimento de reconstrução dos países atingidos pelo tsunami, em 2004.

Os países que formam o cone sul do continente americano também recebem ajuda do Comitê Internacional, que atua em conjunto com as Sociedades Nacionais da Cruz Vermelha de cada país, que são muito fortes nessa região. No Chile, há uma assistência aos índios Maputi, que estão em conflito com madeireiras alegando direito ancestral por terras ao sul do país e também há uma tentativa de aproximar esse povo indígena da assistência médica. Na Argentina, há uma participação nos primeiros socorros às vítimas em questões de distúrbios. No Paraguai, há o tradicional sistema de visitas aos prisioneiros e um diagnóstico da situação carcerária.

E no Brasil? Como essa entidade tão importante tem atuado em terras tupiniquins?

Atualmente, a Cruz Vermelha Brasileira, que outrora já fora uma das mais importantes da América Latina, está afundada em processos trabalhistas. Ela tem um plano estratégico voltado para a violência com o objetivo de tentar se restabelecer. As filiais, como a de São Paulo e de Curitiba, ainda mostram algum fôlego, mas não o suficiente para salvar a imagem da entidade.

O CICV já atuou em conjunto com a Cruz Vermelha Brasileira durante a ditadura militar visitando alguns prisioneiros políticos, principalmente em Pernambuco. No norte do país, houve uma ajuda a uns índios, entre eles crianças com menos de doze anos, que estavam vivendo em beira de estrada. Recentemente, em Caçapava (SP), o próprio João Paulo se encontrou com os militares brasileiros que estavam embarcando para o Haiti. No encontro, houve uma palestra de divulgação das normas em situações de guerra e o esclarecimento de dúvidas de caráter militar. E a situação do Rio de Janeiro é a mais delicada. O que o CICV tem feito é um convênio com o Estado para que as normas sejam implantadas e para que seja discutido o uso da força policial em casos extremos. O sucesso, segundo os próprios policiais, tem sido no âmbito cultural, pois a polícia, que hoje apresenta características militares (vide o filme Tropa de Elite), tem dado abertura para que alguém de fora discuta as doutrinas policiais, o que já é um grande avanço. Há também consultores externos analisando a atuação dos policiais.

Em relação aos morros com grandes problemas sociais, que são quase todos, a atuação tem sido quase mínima. Quando ocorrida, tem permanecido em sigilo por questão de segurança. O que se tem planejado para ser implantado no Brasil é algo que já ocorre similarmente no Paraguai: serviços médicos nas penitenciárias e um diagnóstico da situação carcerária.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha mostrou-se como um dos principais órgãos internacionais, principalmente na defesa do Direito Internacional Humanitário e na assistência as populações dos países em situação de conflito armado. A pouca atuação do CICV no Brasil tem um lado bom, pois mostra que nós não precisamos tanto dela quanto outros países, mas ela poderia ser melhor, como tudo na vida.

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