por Bruno Araujo
Aconteceu no SESC Santana, durante os dias 3 e 4 de outubro, o Solitude, Vozes Femininas, evento que reuniu quatro artistas femininas do cenário musical internacional contemporâneo para duas noites em São Paulo. O espetáculo caracterizou-se por expor com sucesso as peculariedades de cada uma dessas cantoras, que puderam apresentar o seu repertório repleto de diversas inovações sonoras, tanto na melodia dos instrumentos quanto na voz de cada uma. Na quarta-feira apresentaram-se Wendy McNeill, do Canadá, e Joanna Newsom, dos EUA. Na quinta-feira Niobe, da Alemanha, e Juana Molina, Argentina, mostraram ao público brasileiro suas composições já consagradas em terras estrangeiras.
O local escolhido para as apresentações foi um tiro certeiro. A unidade do SESC inaugurada em 2005 goza de instalações impecáveis. A estrutura técnica do anfiteatro, apesar de apresentar uma capacidade limitada de aproximadamente 250 lugares, não deixou a desejar em nenhum momento. Qualidade de som primorosa e iluminação irrefutável. O evento começou pontualmente no horário, além de utilizar-se de ingressos com cadeiras numeradas, prática louvável no que diz respeito a shows. Apesar disso, I.W., 32, diz: “Achei bem estranho trazerem este tipo de evento para o SESC Santana. Diferente né?”
A heterogeneidade dos espectadores era surpreendente. Famílias, casais jovens, velhos, adolescentes, universitários, roqueiros, alternativos, todos se encontrando em uma apresentação que não limitou seu público. As duas noites de ingressos esgotados demonstram o impact destas quatro artistas que, apesar de não participarem da grande indústria musical, cativam com suas novas abordagems sonoras e a qualidade de suas músicas.
As apresentações
O destaque do primeiro dia foi a garota-prodígio Joanna Newsom. Munida de uma harpa maior que seu próprio corpo, Joanna apresentou canções que carregavam toda uma influência do folk, trabalhadas com o toque bem específico da artista. As letras fabulosas e sua distinta voz, aliadas ao poder melódico de sua harpa, comoveram os espectadores durante a apresentação de aproximadamente 1h30. I.W. ressalta o poder vocal de Joanna como sua maior qualidade: “O jeito dela cantar é muito atípico. Está acima da inserção da harpa, bem acima.”
Monkey & Bear, segunda faixa do álbum Ys de Joanna Newsom
A apresentação de quinta-feira manteve o padrão de qualidade da noite anterior. Inicinando o espetáculo, Niobe subiu ao palco e rapidamente se dirigiu à sua invocada mesa de som. Alemã, a artista produz e canta suas músicas, compostas por diversas camadas de efeitos, batidas, filtros de voz e samples. A sonoridade de Niobe se assemelha a um eletrônico experimental que, não obstante às súbitas transformações que suas músicas sofrem, mudando os rumos da mesma, e às constantes manipulações de som e mixagens ao vivo, aborda conceitos pouco comuns no grande cenário musical mas não tão inéditos aos mais conhecidos do assunto.
Juana Molina, a segunda atração da noite, subiu ao palco após um ligeiro intervalo de dez minutos. Durante esta pausa os espectadores tiveram tempo de comprar um café, uma cerveja ou até um copo d’água, na lanchonete, à frente do anfiteatro. Juana foi recebida com uma salva de palmas e apresentou um bom humor contagiante. Após duas músicas, a artista proferiu: “Estou meio nervosa. Os brasileiros são tão musicais que parecem estar sempre criticando.” Um fã na platéia tentou acalmá-la: “Calma, relaxa, te adoro!” Sua apresentação utilizou-se de uma abordagem um pouco mais tradicional mas não menos interessante. Através de seu violão e uma aparelhagem composta por dois teclados ligados a repetidores e sintetizadores, Juana grava o que tocou e coloca o trecho em repetição. A partir disso as músicas vão crescendo, sobrepondo diversos riffs uns aos outros. O controle de todos os instrumentos é feito através de pedais. Essa parafernalha sendo controlada por Juana leva à comparação dela à “banda de uma pessoa só”. Sua voz é suave, quase sussurrada, mas em certos momentos utiliza-a para criar ritmos, frases ininteligíveis e barulhos diversos. Seu despojamento e a disposição em encantar a platéia encontraram o ápice na frase da argentina ao encerrar uma de suas canções: “Brigadinha!” V.S., 19, celebra a realização de um sonho: “Tinha este desejo absurdo de ver a Joanna e a Juana e, em dois dias seguidos, consegui realizar ambos! Quase não consigo acreditar.” Ela completa: “Esta abordagem mais tradicional ao folk não diminui nem um pouco o grande trabalho de Juana.” Molina nasceu em meio à um período conturbado na Argentina e ainda jovem foi levada à Paris. Lá teve contato com a música e com o teatro.
Juana Molina – ¿Quién?
Solitude, Vozes Femininas, pode ser considerado um evento de grande sucesso, tanto comercialmente quanto culturalmente. A grande jogada foi a apresentação de artistas mulheres que brincam com suas respectivas vozes de uma forma muito bem bolada. Seja através de loops, distorções, simulação de efeitos, ecos, os dois espetáculos foram de um bom gosto absurdo. A única ressalva foi o fato de, devido aos inúmeros instrumentos, teclados, laptops, todas as quatro artistas mantiveram uma troca de energia relativamente baixa com a platéia, com exceção de Juana Molina, que, com certeza, era a mais animada de todas. Mesmo assim, Solitude foi muito importante para introduzir no circuito musical nacional algumas vozes que abordam a sonoridade de uma forma diferenciada.










