Arquivo paraOutubro 30, 2007

O pequeno mártir

por Aline Khoury

Rompimento de paradigmas, liberdade criativa e os demais brados entoados pelos artistas pós-modernos têm cada vez mais ultrapassado as fronteiras da inovação até os limites do nonsense – partindo da rebeldia, quebra da tradição ou surrealismo para a polêmica pela simples polêmica. A própria arte propositalmente sem sentido passa a adquirir um: a mera reação de choque. Se você não entende como um pedaço de tela com uma tosca mancha (algo como aquilo que você produzia no pré) pode simbolizar toda a psique neurótica do ser humano capitalista, certamente você seria taxado de insensível ou “intelectualmente raso” pelos apreciadores das abstrações artísticas contemporâneas.

Pois um desses neo-artistas considerou uma verdadeira vanguarda provocar a fome ao vivo. Na bienal de Costa-Rica de Arte em agosto, Guillermo Vargas Habacuc criou uma instalação intitulada “Exposición N° 1″. Ao som do hino sandinista tocado ao contrário, os visitantes se deparavam com uma frase na parede (“eres lo que lees” – és o que lês) cujas letras eram formadas por ração canina. Poucos metros adiante, eram surpreendidos pela seção principal: um cão amarrado à parede por uma corda, definhando de sede e inanição. O animal teria sido capturado nas ruas de Manágua (capital da Nicarágua) especificamente para ser privado de qualquer alimento, ou auxílio veterinário durante aproximadamente dez dias, a fim de que já apresentasse o grau de doença e magreza almejados pelo autor. Apesar dos pedidos de diversos espectadores para que fosse solto e tratado, o cão (batizado de Natividad) permaneceu amarrado até o segundo dia de exposição, quando veio a morrer de fome diante do público.

A aprovação do autor pelos seletores da edição 2008 da Bienal Centroamericana de Honduras foi o estopim para o furor na internet, onde além do linchamento por milhares de blogs em diversos cantos do mundo circula também uma petição para que tal indicação seja revista.

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Em meio à polêmica que já previa causar, Habacuc alega: “O importante para mim era constatar a hipocrisia alheia. Um animal torna-se foco de atenção quando o ponho em um local onde pessoas esperam ver arte, mas não quando está no meio da rua morto de fome”. Concluiu ainda: “O cachorro está mais vivo do que nunca porque segue dando o que falar em muitos países”.

Foi assim que Natividad (nome que remete a nascimento) teve sua sina determinada por um outro nome – o da “Arte”.

 

 

O santo guerreiro e o herói desajustado

por Aline Khoury

Depois de mastigar por 90 minutos folhas de alface caídas em pleno chão da Praça da República, o jovem ator Rodrigo Ramos se justifica: “Assim é o clima mágico da São Jorge, ele te envolve de um jeito que te faz acreditar que por aqueles 90 minutos você realmente se tornou um cavalo! Mergulho na apresentação de tal maneira que seria capaz de lamber aquele chão sem nem me dar conta”. Desde 15 de setembro, o talento de 13 ousados atores como Rodrigo tem surpreendido e encantado os transeuntesdo centro promovendo finais de semana um tanto quanto reflexivos. Em uma combinação carnavalesca entre um grande clássico da literatura universal e a tradição popular brasileira, o primeiro espetáculo de rua da Cia São Jorge de Variedades parece ter correspondido aos objetivos de seu mais novo diretor Rogério Tarifa – “Desde o início procurávamos incitar uma reflexão sobre o sentido do herói nas metrópoles atuais que fosse acima de tudo acessível a qualquer espectador comum”. Fruto da fusão de quatro companhias da Escola de Comunicação e Artes da USP em 1994 (motivada principalmente por dificuldades financeiras), o grupo tem conquistado cada vez mais espaço no cenário alternativo paulistano.
Após longa caminhada, o guerreiro romântico e solitário finalmente chega à metrópole onde tem uma miragem de sua amada Dulcinéia – iniciando, assim, uma dura batalha para conquistá-la. Seus nobres ideais, porém, entram em constante conflito com as regras da cidade grande. Não se adaptando ao caos contemporâneo, o guerreiro vê-se perdido e cada vez mais impotente. Até que o santo popular São Jorge vem com sua história de luta resgatá-lo, revelando a importância do sentido da coletividade que persiste nas “ilhas” de resistência que ainda pulsam no cenário metropolitano.

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Um dos aspectos mais interessantes é a originalidade da produção com um ar proposital de improvisação: “Nem sei estimar ao certo o custo para produzir porque quase todos os acessórios já eram dos próprios atores ou foram reciclados por nós mesmos”. Adornado apenas por cartolinas, panos velhos e muita purpurina, o cenário é composto de duas estruturas de ferro com rodas que permitem encenar carros alegóricos de escolas de samba (principais inspirações do roteiro). Vale ressaltar a empolgação da trilha sonora, que é feita ao vivo com chocalhos e pandeiros caseiros, uma bateria de latões e uma guitarra amplificada.

De volta aos palcos cobertos em dezembro, o grupo pretende retornar ao Teatro de Arena Eugênio Kusnet (R.Teodoro Baima,94-Centro) e ao VentoForte (R.Brigadeiro Haroldo Veloso, 150, Itaim), permanecendo com sua tradicional entrada franca. A direção promete também promover ensaios das peças abertos ao público, repetindo seu feito inovador de 2001.

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Para o futuro, as expectativas são ainda maiores – as quatro companhias têm conquistado tantos adeptos que planejam transformar o grupo num movimento: “A platéia tem mostrado que identifica em nossas performances um estilo de vida próprio, uma nova forma de encarar o mundo ao redor” orgulha-se Tarifa. Pelas bênçãos de São Jorge ou não, o certo é que a companhia já representa uma revolução na rotina daqueles que acabam se tornando estrelas por um dia: os moradores de rua, que sempre caem na cena com a maior empolgação.