Arquivo paraOutubro 17, 2007

O Fino de guerra

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 O repórter Carlos Fino, autor do livro A Guerra Ao Vivo

 

Por Bruno Huberman

 

Lascas de crânio. Restos de cérebro. Poças de sangue. Balas e bombas. Essa é a descrição superficial do cenário que o repórter de guerra é obrigado a conviver enquanto faz a cobertura dos fatos. Para esclarecer as funções e os objetivos dessa romântica figura nessa terrível situação, foi convidado para o 2º encontro do atual módulo do Projeto Repórter do Futuro sobre situações em conflito armado, o homem que furou a CNN no início da Guerra do Iraque: Carlos Fino, repórter da portuguesa RTP (Rádio e Televisão Portuguesa).

            “Sou um repórter de guerra acidental”, disse logo no início da entrevista. Na época em que era um correspondente internacional da RTP em Moscou, Fino sentiu-se impelido a cobrir os conflitos que estavam ocorrendo na então URSS e acabou virando um repórter de guerra, embora, segundo o próprio, estivesse totalmente despreparado, porém não se arrepende.

            Fino se mostrou bastante convicto em certos assuntos mais delicados. Ele é totalmente a favor da criação de um estatuto que permita os jornalistas circularem nas regiões em guerra com imunidade, pois a informação é algo vital para o desenrolar da guerra, embora essa seja altamente espetacularizada. Os meios de comunicação informam o que lhes convém, censuram muitas notícias e chegam até desinformar (fabricando notícias).

            O português também é a favor de algo que o representante do CICV (Comitê Internacional da Cruz Vermelha), João Paulo Charleaux, disse ser contra: uma identificação própria para profissionais de imprensa. Para o ex-repórter, esses profissionais deveriam usar uma cruz azul ou branca como identificação, que seria apenas mais um alvo fácil para os guerrilheiros, segundo Charleaux. Atualmente, os jornalistas apenas usam coletes a prova de bala e os carros, que não são blindados, circulam apenas com os escritos “PRESS” ou “TV” como medida de segurança.

             O repórter

            O jornalista não deve se deixar manipular. Sempre deve estudar e manter-se informado. Sempre ser objetivo e manter uma certa distância em relação aos fatos da realidade. Esses são os mandamentos de um bom repórter de guerra, segundo Carlos Fino. Um bom jornalista deve sempre tentar checar os dois lados da notícia, caso possível, ainda mais numa guerra. É muito difícil seguir a cartilha enquanto se está rodeado por uma tribo de repórteres extremamente individualistas e no meio de dois lados nada amistosos.

            Um repórter independente sempre é eliminado. Em uma guerra, querendo ou não, ele tem que escolher um lado para se proteger. O outro lado sempre irá criar-lhe imposições e dificuldades, não importa o que se faça. Fino, durante a guerra do Iraque, entrou credenciado pelo governo local, porém sempre manteve um bom distanciamento, sendo o máximo imparcial para ficar com uma boa imagem, pois ela é vital na hora de colher uma informação preciosa. Ótimo exemplo de como não ser um repórter de guerra são os americanos, pois em sua maioria eles chegam junto dos soldados ianques e nunca buscam outra informação a não ser a divulgada pelo seu governo.

            A relação repórter-fonte sempre será extremamente ambígua, às vezes até meio esquizofrênica. Uma fonte permanente para o jornalista sempre será propaganda local. No caso do Iraque, os órgãos do Estado iam atrás dos jornalistas para lhes mostrarem as atrocidades que os americanos faziam, às vezes até pagavam para serem entrevistados. Do cotidiano de uma guerra sempre vão saltando pautas, não há como escapar. Assim, a diferença de um repórter para o outro passa ser o feeling, ou seja, estar no local certo na hora certa.

            Uma ilusão desmistificada pelo jornalista português foi a do repórter de hotel. Este é aquele que fica dentro do seu quarto, consultando os principais sites de notícias, assistindo aos maiores canais de televisão, portanto não há problema de fonte, e dessa maneira produz suas pobres matérias jornalísticas. Segundo Fino, sem o repórter no local, sem ele correndo atrás de fontes exclusivas não há cobertura e essa informação é insubstituível. Para tanto, seria mais fácil os meios de comunicação contratarem agências de notícias com suas reportagens frias e teoricamente imparciais – algo que muitos meios brasileiros tem feito, infelizmente.