Arquivo paraOutubro 10, 2007

Desvendando a Cruz Vermelha

Comitê Internacional da Cruz Vermelha

por Bruno Huberman

Tudo começou no longínquo ano de 1859, no dia em que o suíço Nobel da Paz Henri Dunant estava indo se encontrar com Napoleão III. Quando ele se deparou com as vítimas da Batalha de Solferino e decidiu ajudá-las, o primeiro passo já estava dado. Nesses quase 150 anos que separam o acontecimento descrito acima e o encontro desse último sábado, 06 de outubro, nas dependências da Oboré, que iniciou o Projeto Repórter do Futuro, muita coisa aconteceu: o CICV (Comitê Internacional da Cruz Vermelha) foi criado por Henri Dunant, foram assinadas quatro Convenções de Genebra que formam o núcleo duro do DIH (Direito Internacional Humanitário), duas Guerras Mundiais e dezenas de outros conflitos.

Para desvendar os mistérios dessa seita secreta que é o CICV, foi convidado o assessor de comunicação da Cruz Vermelha para Brasil, Chile, Uruguai, Paraguai e Argentina, o jornalista de formação João Paulo Charleaux.

O convidado mostrou muito do que o CICV já fez para o mundo. As Mensagens Cruz Vermelha ajudam os presos a se comunicarem com suas famílias ao redor do globo. Apenas em 2006, foram 630 mil. Em Guantánamo, onde a Cruz Vermelha é a única a ter permissão de entrada, houve ajuda na definição do status jurídico dos presos para que eles pudessem ter um julgamento justo. Em Darfur, há uma distribuição de produtos agrícolas e a presença de veterinários com o intuito de melhorar as situação de vida e assim diminuir número de refugiados e deslocados. No Iraque, mesmo com grandes dificuldades como a morte de cinco colaboradores desde 2003, há uma grande atenção médica à população e um esforço para a restauração do saneamento básico no país. No sudeste asiático, principalmente no Sri-Lanka, há um movimento de reconstrução dos países atingidos pelo tsunami, em 2004.

Os países que formam o cone sul do continente americano também recebem ajuda do Comitê Internacional, que atua em conjunto com as Sociedades Nacionais da Cruz Vermelha de cada país, que são muito fortes nessa região. No Chile, há uma assistência aos índios Maputi, que estão em conflito com madeireiras alegando direito ancestral por terras ao sul do país e também há uma tentativa de aproximar esse povo indígena da assistência médica. Na Argentina, há uma participação nos primeiros socorros às vítimas em questões de distúrbios. No Paraguai, há o tradicional sistema de visitas aos prisioneiros e um diagnóstico da situação carcerária.

E no Brasil? Como essa entidade tão importante tem atuado em terras tupiniquins?

Atualmente, a Cruz Vermelha Brasileira, que outrora já fora uma das mais importantes da América Latina, está afundada em processos trabalhistas. Ela tem um plano estratégico voltado para a violência com o objetivo de tentar se restabelecer. As filiais, como a de São Paulo e de Curitiba, ainda mostram algum fôlego, mas não o suficiente para salvar a imagem da entidade.

O CICV já atuou em conjunto com a Cruz Vermelha Brasileira durante a ditadura militar visitando alguns prisioneiros políticos, principalmente em Pernambuco. No norte do país, houve uma ajuda a uns índios, entre eles crianças com menos de doze anos, que estavam vivendo em beira de estrada. Recentemente, em Caçapava (SP), o próprio João Paulo se encontrou com os militares brasileiros que estavam embarcando para o Haiti. No encontro, houve uma palestra de divulgação das normas em situações de guerra e o esclarecimento de dúvidas de caráter militar. E a situação do Rio de Janeiro é a mais delicada. O que o CICV tem feito é um convênio com o Estado para que as normas sejam implantadas e para que seja discutido o uso da força policial em casos extremos. O sucesso, segundo os próprios policiais, tem sido no âmbito cultural, pois a polícia, que hoje apresenta características militares (vide o filme Tropa de Elite), tem dado abertura para que alguém de fora discuta as doutrinas policiais, o que já é um grande avanço. Há também consultores externos analisando a atuação dos policiais.

Em relação aos morros com grandes problemas sociais, que são quase todos, a atuação tem sido quase mínima. Quando ocorrida, tem permanecido em sigilo por questão de segurança. O que se tem planejado para ser implantado no Brasil é algo que já ocorre similarmente no Paraguai: serviços médicos nas penitenciárias e um diagnóstico da situação carcerária.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha mostrou-se como um dos principais órgãos internacionais, principalmente na defesa do Direito Internacional Humanitário e na assistência as populações dos países em situação de conflito armado. A pouca atuação do CICV no Brasil tem um lado bom, pois mostra que nós não precisamos tanto dela quanto outros países, mas ela poderia ser melhor, como tudo na vida.

Solitude, Vozes Femininas

por Bruno Araujo

Aconteceu no SESC Santana, durante os dias 3 e 4 de outubro, o Solitude, Vozes Femininas, evento que reuniu quatro artistas femininas do cenário musical internacional contemporâneo para duas noites em São Paulo. O espetáculo caracterizou-se por expor com sucesso as peculariedades de cada uma dessas cantoras, que puderam apresentar o seu repertório repleto de diversas inovações sonoras, tanto na melodia dos instrumentos quanto na voz de cada uma. Na quarta-feira apresentaram-se Wendy McNeill, do Canadá, e Joanna Newsom, dos EUA. Na quinta-feira Niobe, da Alemanha, e Juana Molina, Argentina, mostraram ao público brasileiro suas composições já consagradas em terras estrangeiras.
O local escolhido para as apresentações foi um tiro certeiro. A unidade do SESC inaugurada em 2005 goza de instalações impecáveis. A estrutura técnica do anfiteatro, apesar de apresentar uma capacidade limitada de aproximadamente 250 lugares, não deixou a desejar em nenhum momento. Qualidade de som primorosa e iluminação irrefutável. O evento começou pontualmente no horário, além de utilizar-se de ingressos com cadeiras numeradas, prática louvável no que diz respeito a shows. Apesar disso, I.W., 32, diz: “Achei bem estranho trazerem este tipo de evento para o SESC Santana. Diferente né?”
A heterogeneidade dos espectadores era surpreendente. Famílias, casais jovens, velhos, adolescentes, universitários, roqueiros, alternativos, todos se encontrando em uma apresentação que não limitou seu público. As duas noites de ingressos esgotados demonstram o impact destas quatro artistas que, apesar de não participarem da grande indústria musical, cativam com suas novas abordagems sonoras e a qualidade de suas músicas.

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Ys de Joanna Newsom: épico

As apresentações

O destaque do primeiro dia foi a garota-prodígio Joanna Newsom. Munida de uma harpa maior que seu próprio corpo, Joanna apresentou canções que carregavam toda uma influência do folk, trabalhadas com o toque bem específico da artista. As letras fabulosas e sua distinta voz, aliadas ao poder melódico de sua harpa, comoveram os espectadores durante a apresentação de aproximadamente 1h30. I.W. ressalta o poder vocal de Joanna como sua maior qualidade: “O jeito dela cantar é muito atípico. Está acima da inserção da harpa, bem acima.”


Monkey & Bear, segunda faixa do álbum Ys de Joanna Newsom

A apresentação de quinta-feira manteve o padrão de qualidade da noite anterior. Inicinando o espetáculo, Niobe subiu ao palco e rapidamente se dirigiu à sua invocada mesa de som. Alemã, a artista produz e canta suas músicas, compostas por diversas camadas de efeitos, batidas, filtros de voz e samples. A sonoridade de Niobe se assemelha a um eletrônico experimental que, não obstante às súbitas transformações que suas músicas sofrem, mudando os rumos da mesma, e às constantes manipulações de som e mixagens ao vivo, aborda conceitos pouco comuns no grande cenário musical mas não tão inéditos aos mais conhecidos do assunto.

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Juana Molina

Juana Molina, a segunda atração da noite, subiu ao palco após um ligeiro intervalo de dez minutos. Durante esta pausa os espectadores tiveram tempo de comprar um café, uma cerveja ou até um copo d’água, na lanchonete, à frente do anfiteatro. Juana foi recebida com uma salva de palmas e apresentou um bom humor contagiante. Após duas músicas, a artista proferiu: “Estou meio nervosa. Os brasileiros são tão musicais que parecem estar sempre criticando.” Um fã na platéia tentou acalmá-la: “Calma, relaxa, te adoro!” Sua apresentação utilizou-se de uma abordagem um pouco mais tradicional mas não menos interessante. Através de seu violão e uma aparelhagem composta por dois teclados ligados a repetidores e sintetizadores, Juana grava o que tocou e coloca o trecho em repetição. A partir disso as músicas vão crescendo, sobrepondo diversos riffs uns aos outros. O controle de todos os instrumentos é feito através de pedais. Essa parafernalha sendo controlada por Juana leva à comparação dela à “banda de uma pessoa só”. Sua voz é suave, quase sussurrada, mas em certos momentos utiliza-a para criar ritmos, frases ininteligíveis e barulhos diversos. Seu despojamento e a disposição em encantar a platéia encontraram o ápice na frase da argentina ao encerrar uma de suas canções: “Brigadinha!” V.S., 19, celebra a realização de um sonho: “Tinha este desejo absurdo de ver a Joanna e a Juana e, em dois dias seguidos, consegui realizar ambos! Quase não consigo acreditar.” Ela completa: “Esta abordagem mais tradicional ao folk não diminui nem um pouco o grande trabalho de Juana.” Molina nasceu em meio à um período conturbado na Argentina e ainda jovem foi levada à Paris. Lá teve contato com a música e com o teatro.

 


Juana Molina – ¿Quién?

Solitude, Vozes Femininas, pode ser considerado um evento de grande sucesso, tanto comercialmente quanto culturalmente. A grande jogada foi a apresentação de artistas mulheres que brincam com suas respectivas vozes de uma forma muito bem bolada. Seja através de loops, distorções, simulação de efeitos, ecos, os dois espetáculos foram de um bom gosto absurdo. A única ressalva foi o fato de, devido aos inúmeros instrumentos, teclados, laptops, todas as quatro artistas mantiveram uma troca de energia relativamente baixa com a platéia, com exceção de Juana Molina, que, com certeza, era a mais animada de todas. Mesmo assim, Solitude foi muito importante para introduzir no circuito musical nacional algumas vozes que abordam a sonoridade de uma forma diferenciada.

Download dos álbuns de Joanna Newsom