
Comitê Internacional da Cruz Vermelha
por Bruno Huberman
Tudo começou no longínquo ano de 1859, no dia em que o suíço Nobel da Paz Henri Dunant estava indo se encontrar com Napoleão III. Quando ele se deparou com as vítimas da Batalha de Solferino e decidiu ajudá-las, o primeiro passo já estava dado. Nesses quase 150 anos que separam o acontecimento descrito acima e o encontro desse último sábado, 06 de outubro, nas dependências da Oboré, que iniciou o Projeto Repórter do Futuro, muita coisa aconteceu: o CICV (Comitê Internacional da Cruz Vermelha) foi criado por Henri Dunant, foram assinadas quatro Convenções de Genebra que formam o núcleo duro do DIH (Direito Internacional Humanitário), duas Guerras Mundiais e dezenas de outros conflitos.
Para desvendar os mistérios dessa seita secreta que é o CICV, foi convidado o assessor de comunicação da Cruz Vermelha para Brasil, Chile, Uruguai, Paraguai e Argentina, o jornalista de formação João Paulo Charleaux.
O convidado mostrou muito do que o CICV já fez para o mundo. As Mensagens Cruz Vermelha ajudam os presos a se comunicarem com suas famílias ao redor do globo. Apenas em 2006, foram 630 mil. Em Guantánamo, onde a Cruz Vermelha é a única a ter permissão de entrada, houve ajuda na definição do status jurídico dos presos para que eles pudessem ter um julgamento justo. Em Darfur, há uma distribuição de produtos agrícolas e a presença de veterinários com o intuito de melhorar as situação de vida e assim diminuir número de refugiados e deslocados. No Iraque, mesmo com grandes dificuldades como a morte de cinco colaboradores desde 2003, há uma grande atenção médica à população e um esforço para a restauração do saneamento básico no país. No sudeste asiático, principalmente no Sri-Lanka, há um movimento de reconstrução dos países atingidos pelo tsunami, em 2004.
Os países que formam o cone sul do continente americano também recebem ajuda do Comitê Internacional, que atua em conjunto com as Sociedades Nacionais da Cruz Vermelha de cada país, que são muito fortes nessa região. No Chile, há uma assistência aos índios Maputi, que estão em conflito com madeireiras alegando direito ancestral por terras ao sul do país e também há uma tentativa de aproximar esse povo indígena da assistência médica. Na Argentina, há uma participação nos primeiros socorros às vítimas em questões de distúrbios. No Paraguai, há o tradicional sistema de visitas aos prisioneiros e um diagnóstico da situação carcerária.
E no Brasil? Como essa entidade tão importante tem atuado em terras tupiniquins?
Atualmente, a Cruz Vermelha Brasileira, que outrora já fora uma das mais importantes da América Latina, está afundada em processos trabalhistas. Ela tem um plano estratégico voltado para a violência com o objetivo de tentar se restabelecer. As filiais, como a de São Paulo e de Curitiba, ainda mostram algum fôlego, mas não o suficiente para salvar a imagem da entidade.
O CICV já atuou em conjunto com a Cruz Vermelha Brasileira durante a ditadura militar visitando alguns prisioneiros políticos, principalmente em Pernambuco. No norte do país, houve uma ajuda a uns índios, entre eles crianças com menos de doze anos, que estavam vivendo em beira de estrada. Recentemente, em Caçapava (SP), o próprio João Paulo se encontrou com os militares brasileiros que estavam embarcando para o Haiti. No encontro, houve uma palestra de divulgação das normas em situações de guerra e o esclarecimento de dúvidas de caráter militar. E a situação do Rio de Janeiro é a mais delicada. O que o CICV tem feito é um convênio com o Estado para que as normas sejam implantadas e para que seja discutido o uso da força policial em casos extremos. O sucesso, segundo os próprios policiais, tem sido no âmbito cultural, pois a polícia, que hoje apresenta características militares (vide o filme Tropa de Elite), tem dado abertura para que alguém de fora discuta as doutrinas policiais, o que já é um grande avanço. Há também consultores externos analisando a atuação dos policiais.
Em relação aos morros com grandes problemas sociais, que são quase todos, a atuação tem sido quase mínima. Quando ocorrida, tem permanecido em sigilo por questão de segurança. O que se tem planejado para ser implantado no Brasil é algo que já ocorre similarmente no Paraguai: serviços médicos nas penitenciárias e um diagnóstico da situação carcerária.
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha mostrou-se como um dos principais órgãos internacionais, principalmente na defesa do Direito Internacional Humanitário e na assistência as populações dos países em situação de conflito armado. A pouca atuação do CICV no Brasil tem um lado bom, pois mostra que nós não precisamos tanto dela quanto outros países, mas ela poderia ser melhor, como tudo na vida.

