
Por Jaqueline Ogliari
“Ver é a pura loucura do corpo”. Uma das frases de Água Viva abre a grande exposição temporária Clarice Lispector – A hora da estrela, no Museu da Língua Portuguesa, em comemoração de um ano de funcionamento. Apesar de fazer trinta anos de sua morte, Clarice marca sua eterna presença na literatura brasileira. Nasceu na Ucrânia, em 1920, mas é considerada uma das melhores escritoras brasileiras, e lutou por sua cidadania com bravura e sensibilidade. Escreveu obras inesquecíveis, como A paixão segundo G.H., A maçã no escuro e A hora da estrela.
O museu é conhecido pela disposição moderna de seu acervo e pela interatividade que os visitantes podem ter com ele. Ao entrar no ambiente em que está a exposição, deparamo-nos com uma sala escura, com várias imagens da escritora na parede, e atrás frases de seus livros. Olhamos cada uma como se estivéssemos olhando para dentro da própria Clarice – talvez fosse essa mesma a intenção. Depois, há uma outra salinha, com mais frases da escritora grifadas nas paredes brancas, e um colchão disposto no meio também com uma frase. Seguindo a exposição, entramos em outro espaço com quadrados nas paredes tampados com vidro; logo após este há mais um ambiente escuro, mais frases grifadas na parede e um cubículo de espelho ao meio com as cidades pelas quais Clarice passou.
Após conhecer um pouco das obras de Clarice, há um ambiente enorme com várias (muitas mesmo) gavetas envolvendo as paredes. Algumas delas são possíveis de se abrir, e dentro encontramos documentos, livros, fotos, publicações e cartas – tudo sobre a vida da escritora. É bastante agradável abrir uma por uma, olhar as fotos, ler as cartas escritas à máquina ou ao próprio punho de Clarice e mergulhar no seu mundo cheio de mistérios. “Com o perdão da palavra, sou um mistério para mim”, segundo ela própria.
No meio desse espaço cheio de gavetas, há um outro menor com paredes brancas, e uma frase do livro A paixão segundo G.H.. Quando você entra na sala, depois de ler a frase, descobre que há uma barata gigante projetada ao fundo. Ao percorrer a exposição, fazemos descobertas como essas, e muitas vezes nos colocamos no lugar de suas personagens.
Inserir o público no mundo particular de Clarice Lispector não é nada simples. O Museu da Língua Portuguesa cumpre a missão de desvendar os enigmas de sua vida, “a explicação do enigma é a repetição do enigma”. A exposição foi prorrogada até 14 de outubro, para que muitos ainda possam conhecer e desbravar a vida e a obra enriquecedoras de Clarice.
