Arquivo paraOutubro, 2007

TIM Festival

por Marianna Sanfelicio

 

          De todos os lugares onde se podia estar em São Paulo no domingo, o mais lotado era com certeza a Arena Skol Anhembi. A Arena Skol foi palco dos shows mais comentados e esperados do TIM Festival, evento anual que acontece desde 2003. As seis atrações do dia 28 atraíram mais de 23 mil pessoas, que tentavam a todo custo ficar o mais próximo possível do palco. Algumas pessoas só não conseguiram chegar ainda mais perto por causa da área VIP, colocada entre o público da pista e os cantores. A área VIP, aliás, era o único local onde havia lugares para se sentar. O resto do público foi obrigado a se sentar no chão, no melhor estilo Woodstock. O grande número de pessoas presentes causou o esgotamento de vários produtos nos bares, e ainda durante o show do Arctic Monkeys já não havia mais água ou refrigerantes. Os bares do lado direito do palco sofreram com a falta de pastéis, yakissoba e hambúrgueres. Os atendentes pareciam estar mais nervosos que os próprios consumidores, a quem só restavam cervejas e energéticos. O problema só foi resolvido pouco tempo antes do início do show do The Killers.

          Os shows estavam marcados para começar às 18h30, mas já havia muitas pessoas na Arena Skol antes mesmo das 15h. A primeira banda a se apresentar foi a norte americana Spank Rock, seguida pelo Hot chip, cujo show teve uma parada de 15 minutos por problemas técnicos. Parada mais que festejada por mim, que tive tempo extra para procurar um banheiro. Má sinalização e falta de pessoas a quem perguntar eram frequentes, fora seguranças que davam descaradamente em cima de qualquer coisa com ou sem peitos que passasse por eles. Apesar da terrível organização, a festa foi um sucesso, e não há do que reclamar quando se trata das performances das bandas. Björk levantou a platéia, e vestiu uma roupa que para muitas pessoas lembrou a de Nossa Senhora Aparecida misturada com temas psicodélicos. Para outras no entanto estava mais parecida com uma arara.

 

Juliette Lewis

 

          A pausa agendada para acontecer entre o show de Björk e Juliette and the Licks não durou mais que a pausa que aconteceu entre as outras bandas. Juliette Lewis foi um show à parte, totalmente integrada com os músicos de sua banda, com o palco e com o público. A crítica pode ter odiado, mas quem viu o show com certeza ficou com gostinho de “quero mais”. Vozes masculinas e femininas podiam ser ouvidas no meio da platéia, gritando “Juliette, me come!”, quando a cantora e atriz passou a língua nos lábios. O show do Arctic Monkeys, o mais esperado da noite segundo o blog do TIM Festival, não foi tão empolgante quanto poderia ser. A atitude blasè do grupo inglês não agradou tanto os fãs brasileiros, e o fato de o show acontecer entre os super animados The Killers e Juliette and the Licks não ajudou em nada. Poderiam também ter feito um show mais longo, apesar do grande atraso – o público não ia se importar. Apesar dos pedidos insistentes da platéia para que tocassem Mardy Bum, 505 e when the Sun Goes Down, não houve nenhum bis.

 

 

          The Killers entrou no palco para fechar a noite, às três da manhã. Apesar do adiantado da hora e da falta de organização, a maior parte do público continuava lá. A banda tocou até as 4h, com uma platéia empolgada ao som de Mr. Brightside, All These Things That I`ve Done, For Reasons Unknown, Bling, Jenny Was a Friend of Mine e outros sucessos. O auge ficou por conta de Somebody Told Me, conhecida por todos no Brasil por ter se tornado tema de novela. Para quem gosta das bandas, foi uma experiência e tanto.

 

O pequeno mártir

por Aline Khoury

Rompimento de paradigmas, liberdade criativa e os demais brados entoados pelos artistas pós-modernos têm cada vez mais ultrapassado as fronteiras da inovação até os limites do nonsense – partindo da rebeldia, quebra da tradição ou surrealismo para a polêmica pela simples polêmica. A própria arte propositalmente sem sentido passa a adquirir um: a mera reação de choque. Se você não entende como um pedaço de tela com uma tosca mancha (algo como aquilo que você produzia no pré) pode simbolizar toda a psique neurótica do ser humano capitalista, certamente você seria taxado de insensível ou “intelectualmente raso” pelos apreciadores das abstrações artísticas contemporâneas.

Pois um desses neo-artistas considerou uma verdadeira vanguarda provocar a fome ao vivo. Na bienal de Costa-Rica de Arte em agosto, Guillermo Vargas Habacuc criou uma instalação intitulada “Exposición N° 1″. Ao som do hino sandinista tocado ao contrário, os visitantes se deparavam com uma frase na parede (“eres lo que lees” – és o que lês) cujas letras eram formadas por ração canina. Poucos metros adiante, eram surpreendidos pela seção principal: um cão amarrado à parede por uma corda, definhando de sede e inanição. O animal teria sido capturado nas ruas de Manágua (capital da Nicarágua) especificamente para ser privado de qualquer alimento, ou auxílio veterinário durante aproximadamente dez dias, a fim de que já apresentasse o grau de doença e magreza almejados pelo autor. Apesar dos pedidos de diversos espectadores para que fosse solto e tratado, o cão (batizado de Natividad) permaneceu amarrado até o segundo dia de exposição, quando veio a morrer de fome diante do público.

A aprovação do autor pelos seletores da edição 2008 da Bienal Centroamericana de Honduras foi o estopim para o furor na internet, onde além do linchamento por milhares de blogs em diversos cantos do mundo circula também uma petição para que tal indicação seja revista.

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Em meio à polêmica que já previa causar, Habacuc alega: “O importante para mim era constatar a hipocrisia alheia. Um animal torna-se foco de atenção quando o ponho em um local onde pessoas esperam ver arte, mas não quando está no meio da rua morto de fome”. Concluiu ainda: “O cachorro está mais vivo do que nunca porque segue dando o que falar em muitos países”.

Foi assim que Natividad (nome que remete a nascimento) teve sua sina determinada por um outro nome – o da “Arte”.

 

 

O santo guerreiro e o herói desajustado

por Aline Khoury

Depois de mastigar por 90 minutos folhas de alface caídas em pleno chão da Praça da República, o jovem ator Rodrigo Ramos se justifica: “Assim é o clima mágico da São Jorge, ele te envolve de um jeito que te faz acreditar que por aqueles 90 minutos você realmente se tornou um cavalo! Mergulho na apresentação de tal maneira que seria capaz de lamber aquele chão sem nem me dar conta”. Desde 15 de setembro, o talento de 13 ousados atores como Rodrigo tem surpreendido e encantado os transeuntesdo centro promovendo finais de semana um tanto quanto reflexivos. Em uma combinação carnavalesca entre um grande clássico da literatura universal e a tradição popular brasileira, o primeiro espetáculo de rua da Cia São Jorge de Variedades parece ter correspondido aos objetivos de seu mais novo diretor Rogério Tarifa – “Desde o início procurávamos incitar uma reflexão sobre o sentido do herói nas metrópoles atuais que fosse acima de tudo acessível a qualquer espectador comum”. Fruto da fusão de quatro companhias da Escola de Comunicação e Artes da USP em 1994 (motivada principalmente por dificuldades financeiras), o grupo tem conquistado cada vez mais espaço no cenário alternativo paulistano.
Após longa caminhada, o guerreiro romântico e solitário finalmente chega à metrópole onde tem uma miragem de sua amada Dulcinéia – iniciando, assim, uma dura batalha para conquistá-la. Seus nobres ideais, porém, entram em constante conflito com as regras da cidade grande. Não se adaptando ao caos contemporâneo, o guerreiro vê-se perdido e cada vez mais impotente. Até que o santo popular São Jorge vem com sua história de luta resgatá-lo, revelando a importância do sentido da coletividade que persiste nas “ilhas” de resistência que ainda pulsam no cenário metropolitano.

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Um dos aspectos mais interessantes é a originalidade da produção com um ar proposital de improvisação: “Nem sei estimar ao certo o custo para produzir porque quase todos os acessórios já eram dos próprios atores ou foram reciclados por nós mesmos”. Adornado apenas por cartolinas, panos velhos e muita purpurina, o cenário é composto de duas estruturas de ferro com rodas que permitem encenar carros alegóricos de escolas de samba (principais inspirações do roteiro). Vale ressaltar a empolgação da trilha sonora, que é feita ao vivo com chocalhos e pandeiros caseiros, uma bateria de latões e uma guitarra amplificada.

De volta aos palcos cobertos em dezembro, o grupo pretende retornar ao Teatro de Arena Eugênio Kusnet (R.Teodoro Baima,94-Centro) e ao VentoForte (R.Brigadeiro Haroldo Veloso, 150, Itaim), permanecendo com sua tradicional entrada franca. A direção promete também promover ensaios das peças abertos ao público, repetindo seu feito inovador de 2001.

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Para o futuro, as expectativas são ainda maiores – as quatro companhias têm conquistado tantos adeptos que planejam transformar o grupo num movimento: “A platéia tem mostrado que identifica em nossas performances um estilo de vida próprio, uma nova forma de encarar o mundo ao redor” orgulha-se Tarifa. Pelas bênçãos de São Jorge ou não, o certo é que a companhia já representa uma revolução na rotina daqueles que acabam se tornando estrelas por um dia: os moradores de rua, que sempre caem na cena com a maior empolgação.

O Haiti é aqui

 

por Bruno Huberman

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Soldado brasileiro em ação no Haiti

“O Rio de Janeiro é pior do que o Haiti”, declarou o Coronel Cunha Mattos, carioca de nascença e que esteve no país caribenho entre dezembro de 2005 e junho de 2006 chefiando o Setor de Comunicação Social da Força de Paz da ONU no Haiti. Ao longo da entrevista na sede da Oboré para o terceiro encontro do atual módulo do Projeto Repórter do Futuro sobre situações de conflito armado, o coronel, que atualmente dirige a Seção de Informações Públicas do Centro de Comunicação Social do Exército, sempre falando na primeira pessoa do plural, mostrou-se bastante disposto a discutir a delicada condição dos morros cariocas.

A situação da capital fluminense é pior do que a haitiana por alguns motivos, segundo Cunha Mattos. A começar pela geografia: as favelas cariocas geralmente estão situadas em morros – o que também é uma grande vantagem tático-militar para os traficantes – enquanto as haitianas são planas.

No Rio de Janeiro há um interesse financeiro em manter o território por causa do das drogas, assim o combate é constante e os interesses econômicos estão atrelados aos territoriais. No Haiti, embora haja tráfico de drogas, ele é muito pequeno, pois não há comprador e a ilha serve mais como rota de tráfico para os Estados Unidos. As favelas haitianas servem de abrigo para seqüestradores. Uma vez que o cativeiro caiu, não é muito difícil ver o seqüestrador abandonar o território com ou sem o seqüestrado e o combate ocorre apenas por iniciativa do exército.

O armamento utilizado nos dois locais também é muito diferente. O usado contra os soldados brasileiros é bastante antigo e o coquetel molotov, arma incendiária caseira, é o preferido dos haitianos. Já na guerra contra o Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) e cia, não é muito difícil encontrar fuzis, granadas e metralhadoras de calibre geralmente maior do que os usados pelos policiais.

Uma das poucas semelhanças entre os dois locais são as facções criminosas: em ambas não há organização. Na capital fluminense, é muito comum um traficante matar o chefe do morro vizinho. Às vezes, na própria favela também há uma grande disputa na chefia. O próprio Comando Vermelho, outrora tão temido, já está se fragmentando. No Haiti, principalmente em Porto Príncipe, a capital, a situação não é muito diferente. Os criminosos não se unem para se defender dos exércitos estrangeiros, é cada um por si, assim a ação da ONU fica facilitada.

 

O exército e o morro

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Favela da Maré (RJ)

A situação dos morros cariocas parece estar cada vez pior. Embora, segundo Cunha Mattos, o Bope possa ser uma das melhores policias especiais do mundo, não parece haver nada que possa controlar as favelas. Muitas mortes ocorrem, vide o filme Tropa de Elite e a ação do Batalhão no último dia 19, em que duas pessoas morreram na Cidade de Deus, e nada muda.

A única saída aparente seria a atuação do exército nas favelas, e isso já aconteceu algumas vezes. Não é muito difícil se recordar dos tanques militares voltados para os morros durante a Eco Rio 92. Porém, todas essas ações foram feitas sob a lei de manutenção da ordem pública, e ocorrem esporadicamente em situações excepcionais.

O recente caso do roubo de 10 fuzis e uma pistola no Estabelecimento Central de Transportes (ECT), no bairro de São Cristóvão (zona norte), no dia 3 de março, mostrou a atual incapacidade do exército de atuar no Rio. Por falta de amparo legal, os militares não puderam revistar os barracos para encontrar os fuzis. Como solução, eles tomaram 12 favelas da capital, entre eles o Complexo do Alemão e a Maré, entre os dias 3 e 14 de março, diminuíram bruscamente o tráfico de drogas e os fuzis acabaram aparecendo, após um acordo com o Comando Vermelho, que assumiu a autoria do roubo.

A falta de jurisdição legal, aparentemente, é o maior empecilho para a presença dos soldados nas favelas do Rio de Janeiro. Segundo o coronel, o exército “tem capacidade tática, mas falta capacidade jurídica”. Há também uma dificuldade política para atuar sobre a polícia, pois, ela seria a força que daria conta da situação, e ao convocar o exército, automaticamente se está menosprezando a força policial.

Caso esse impedimento jurídico fosse vencido, teria que ser feito um treinamento para os militares atuarem como polícia, nos moldes do feito para o Haiti, já que a situação daqui é pior do que a de lá, como disse o chefe da Seção de Informações Públicas do Exército. O exército também teria que se adaptar para diminuir os efeitos colaterais de suas ações, e assim garantir o princípio fundamental da humanidade, que é o direito à vida.

Uma vez que o exército tomar a favela, não pode simplesmente ir embora, segundo disse o coronel. Ele tem que se estabelecer no morro e afiançar que a situação se manterá controlada. E, quem sabe, com o mesmo jeitinho brasileiro de ser e com a mesma cordialidade que o exército tem apresentado no Haiti e que tem dado certo, os militares poderiam realizar ações sociais de uma forma sistemática, tal qual no Haiti, e tranqüilizar a conturbada situação em que o Rio de Janeiro se encontra.

O Fino de guerra

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 O repórter Carlos Fino, autor do livro A Guerra Ao Vivo

 

Por Bruno Huberman

 

Lascas de crânio. Restos de cérebro. Poças de sangue. Balas e bombas. Essa é a descrição superficial do cenário que o repórter de guerra é obrigado a conviver enquanto faz a cobertura dos fatos. Para esclarecer as funções e os objetivos dessa romântica figura nessa terrível situação, foi convidado para o 2º encontro do atual módulo do Projeto Repórter do Futuro sobre situações em conflito armado, o homem que furou a CNN no início da Guerra do Iraque: Carlos Fino, repórter da portuguesa RTP (Rádio e Televisão Portuguesa).

            “Sou um repórter de guerra acidental”, disse logo no início da entrevista. Na época em que era um correspondente internacional da RTP em Moscou, Fino sentiu-se impelido a cobrir os conflitos que estavam ocorrendo na então URSS e acabou virando um repórter de guerra, embora, segundo o próprio, estivesse totalmente despreparado, porém não se arrepende.

            Fino se mostrou bastante convicto em certos assuntos mais delicados. Ele é totalmente a favor da criação de um estatuto que permita os jornalistas circularem nas regiões em guerra com imunidade, pois a informação é algo vital para o desenrolar da guerra, embora essa seja altamente espetacularizada. Os meios de comunicação informam o que lhes convém, censuram muitas notícias e chegam até desinformar (fabricando notícias).

            O português também é a favor de algo que o representante do CICV (Comitê Internacional da Cruz Vermelha), João Paulo Charleaux, disse ser contra: uma identificação própria para profissionais de imprensa. Para o ex-repórter, esses profissionais deveriam usar uma cruz azul ou branca como identificação, que seria apenas mais um alvo fácil para os guerrilheiros, segundo Charleaux. Atualmente, os jornalistas apenas usam coletes a prova de bala e os carros, que não são blindados, circulam apenas com os escritos “PRESS” ou “TV” como medida de segurança.

             O repórter

            O jornalista não deve se deixar manipular. Sempre deve estudar e manter-se informado. Sempre ser objetivo e manter uma certa distância em relação aos fatos da realidade. Esses são os mandamentos de um bom repórter de guerra, segundo Carlos Fino. Um bom jornalista deve sempre tentar checar os dois lados da notícia, caso possível, ainda mais numa guerra. É muito difícil seguir a cartilha enquanto se está rodeado por uma tribo de repórteres extremamente individualistas e no meio de dois lados nada amistosos.

            Um repórter independente sempre é eliminado. Em uma guerra, querendo ou não, ele tem que escolher um lado para se proteger. O outro lado sempre irá criar-lhe imposições e dificuldades, não importa o que se faça. Fino, durante a guerra do Iraque, entrou credenciado pelo governo local, porém sempre manteve um bom distanciamento, sendo o máximo imparcial para ficar com uma boa imagem, pois ela é vital na hora de colher uma informação preciosa. Ótimo exemplo de como não ser um repórter de guerra são os americanos, pois em sua maioria eles chegam junto dos soldados ianques e nunca buscam outra informação a não ser a divulgada pelo seu governo.

            A relação repórter-fonte sempre será extremamente ambígua, às vezes até meio esquizofrênica. Uma fonte permanente para o jornalista sempre será propaganda local. No caso do Iraque, os órgãos do Estado iam atrás dos jornalistas para lhes mostrarem as atrocidades que os americanos faziam, às vezes até pagavam para serem entrevistados. Do cotidiano de uma guerra sempre vão saltando pautas, não há como escapar. Assim, a diferença de um repórter para o outro passa ser o feeling, ou seja, estar no local certo na hora certa.

            Uma ilusão desmistificada pelo jornalista português foi a do repórter de hotel. Este é aquele que fica dentro do seu quarto, consultando os principais sites de notícias, assistindo aos maiores canais de televisão, portanto não há problema de fonte, e dessa maneira produz suas pobres matérias jornalísticas. Segundo Fino, sem o repórter no local, sem ele correndo atrás de fontes exclusivas não há cobertura e essa informação é insubstituível. Para tanto, seria mais fácil os meios de comunicação contratarem agências de notícias com suas reportagens frias e teoricamente imparciais – algo que muitos meios brasileiros tem feito, infelizmente.

Desvendando a Cruz Vermelha

Comitê Internacional da Cruz Vermelha

por Bruno Huberman

Tudo começou no longínquo ano de 1859, no dia em que o suíço Nobel da Paz Henri Dunant estava indo se encontrar com Napoleão III. Quando ele se deparou com as vítimas da Batalha de Solferino e decidiu ajudá-las, o primeiro passo já estava dado. Nesses quase 150 anos que separam o acontecimento descrito acima e o encontro desse último sábado, 06 de outubro, nas dependências da Oboré, que iniciou o Projeto Repórter do Futuro, muita coisa aconteceu: o CICV (Comitê Internacional da Cruz Vermelha) foi criado por Henri Dunant, foram assinadas quatro Convenções de Genebra que formam o núcleo duro do DIH (Direito Internacional Humanitário), duas Guerras Mundiais e dezenas de outros conflitos.

Para desvendar os mistérios dessa seita secreta que é o CICV, foi convidado o assessor de comunicação da Cruz Vermelha para Brasil, Chile, Uruguai, Paraguai e Argentina, o jornalista de formação João Paulo Charleaux.

O convidado mostrou muito do que o CICV já fez para o mundo. As Mensagens Cruz Vermelha ajudam os presos a se comunicarem com suas famílias ao redor do globo. Apenas em 2006, foram 630 mil. Em Guantánamo, onde a Cruz Vermelha é a única a ter permissão de entrada, houve ajuda na definição do status jurídico dos presos para que eles pudessem ter um julgamento justo. Em Darfur, há uma distribuição de produtos agrícolas e a presença de veterinários com o intuito de melhorar as situação de vida e assim diminuir número de refugiados e deslocados. No Iraque, mesmo com grandes dificuldades como a morte de cinco colaboradores desde 2003, há uma grande atenção médica à população e um esforço para a restauração do saneamento básico no país. No sudeste asiático, principalmente no Sri-Lanka, há um movimento de reconstrução dos países atingidos pelo tsunami, em 2004.

Os países que formam o cone sul do continente americano também recebem ajuda do Comitê Internacional, que atua em conjunto com as Sociedades Nacionais da Cruz Vermelha de cada país, que são muito fortes nessa região. No Chile, há uma assistência aos índios Maputi, que estão em conflito com madeireiras alegando direito ancestral por terras ao sul do país e também há uma tentativa de aproximar esse povo indígena da assistência médica. Na Argentina, há uma participação nos primeiros socorros às vítimas em questões de distúrbios. No Paraguai, há o tradicional sistema de visitas aos prisioneiros e um diagnóstico da situação carcerária.

E no Brasil? Como essa entidade tão importante tem atuado em terras tupiniquins?

Atualmente, a Cruz Vermelha Brasileira, que outrora já fora uma das mais importantes da América Latina, está afundada em processos trabalhistas. Ela tem um plano estratégico voltado para a violência com o objetivo de tentar se restabelecer. As filiais, como a de São Paulo e de Curitiba, ainda mostram algum fôlego, mas não o suficiente para salvar a imagem da entidade.

O CICV já atuou em conjunto com a Cruz Vermelha Brasileira durante a ditadura militar visitando alguns prisioneiros políticos, principalmente em Pernambuco. No norte do país, houve uma ajuda a uns índios, entre eles crianças com menos de doze anos, que estavam vivendo em beira de estrada. Recentemente, em Caçapava (SP), o próprio João Paulo se encontrou com os militares brasileiros que estavam embarcando para o Haiti. No encontro, houve uma palestra de divulgação das normas em situações de guerra e o esclarecimento de dúvidas de caráter militar. E a situação do Rio de Janeiro é a mais delicada. O que o CICV tem feito é um convênio com o Estado para que as normas sejam implantadas e para que seja discutido o uso da força policial em casos extremos. O sucesso, segundo os próprios policiais, tem sido no âmbito cultural, pois a polícia, que hoje apresenta características militares (vide o filme Tropa de Elite), tem dado abertura para que alguém de fora discuta as doutrinas policiais, o que já é um grande avanço. Há também consultores externos analisando a atuação dos policiais.

Em relação aos morros com grandes problemas sociais, que são quase todos, a atuação tem sido quase mínima. Quando ocorrida, tem permanecido em sigilo por questão de segurança. O que se tem planejado para ser implantado no Brasil é algo que já ocorre similarmente no Paraguai: serviços médicos nas penitenciárias e um diagnóstico da situação carcerária.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha mostrou-se como um dos principais órgãos internacionais, principalmente na defesa do Direito Internacional Humanitário e na assistência as populações dos países em situação de conflito armado. A pouca atuação do CICV no Brasil tem um lado bom, pois mostra que nós não precisamos tanto dela quanto outros países, mas ela poderia ser melhor, como tudo na vida.

Solitude, Vozes Femininas

por Bruno Araujo

Aconteceu no SESC Santana, durante os dias 3 e 4 de outubro, o Solitude, Vozes Femininas, evento que reuniu quatro artistas femininas do cenário musical internacional contemporâneo para duas noites em São Paulo. O espetáculo caracterizou-se por expor com sucesso as peculariedades de cada uma dessas cantoras, que puderam apresentar o seu repertório repleto de diversas inovações sonoras, tanto na melodia dos instrumentos quanto na voz de cada uma. Na quarta-feira apresentaram-se Wendy McNeill, do Canadá, e Joanna Newsom, dos EUA. Na quinta-feira Niobe, da Alemanha, e Juana Molina, Argentina, mostraram ao público brasileiro suas composições já consagradas em terras estrangeiras.
O local escolhido para as apresentações foi um tiro certeiro. A unidade do SESC inaugurada em 2005 goza de instalações impecáveis. A estrutura técnica do anfiteatro, apesar de apresentar uma capacidade limitada de aproximadamente 250 lugares, não deixou a desejar em nenhum momento. Qualidade de som primorosa e iluminação irrefutável. O evento começou pontualmente no horário, além de utilizar-se de ingressos com cadeiras numeradas, prática louvável no que diz respeito a shows. Apesar disso, I.W., 32, diz: “Achei bem estranho trazerem este tipo de evento para o SESC Santana. Diferente né?”
A heterogeneidade dos espectadores era surpreendente. Famílias, casais jovens, velhos, adolescentes, universitários, roqueiros, alternativos, todos se encontrando em uma apresentação que não limitou seu público. As duas noites de ingressos esgotados demonstram o impact destas quatro artistas que, apesar de não participarem da grande indústria musical, cativam com suas novas abordagems sonoras e a qualidade de suas músicas.

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Ys de Joanna Newsom: épico

As apresentações

O destaque do primeiro dia foi a garota-prodígio Joanna Newsom. Munida de uma harpa maior que seu próprio corpo, Joanna apresentou canções que carregavam toda uma influência do folk, trabalhadas com o toque bem específico da artista. As letras fabulosas e sua distinta voz, aliadas ao poder melódico de sua harpa, comoveram os espectadores durante a apresentação de aproximadamente 1h30. I.W. ressalta o poder vocal de Joanna como sua maior qualidade: “O jeito dela cantar é muito atípico. Está acima da inserção da harpa, bem acima.”


Monkey & Bear, segunda faixa do álbum Ys de Joanna Newsom

A apresentação de quinta-feira manteve o padrão de qualidade da noite anterior. Inicinando o espetáculo, Niobe subiu ao palco e rapidamente se dirigiu à sua invocada mesa de som. Alemã, a artista produz e canta suas músicas, compostas por diversas camadas de efeitos, batidas, filtros de voz e samples. A sonoridade de Niobe se assemelha a um eletrônico experimental que, não obstante às súbitas transformações que suas músicas sofrem, mudando os rumos da mesma, e às constantes manipulações de som e mixagens ao vivo, aborda conceitos pouco comuns no grande cenário musical mas não tão inéditos aos mais conhecidos do assunto.

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Juana Molina

Juana Molina, a segunda atração da noite, subiu ao palco após um ligeiro intervalo de dez minutos. Durante esta pausa os espectadores tiveram tempo de comprar um café, uma cerveja ou até um copo d’água, na lanchonete, à frente do anfiteatro. Juana foi recebida com uma salva de palmas e apresentou um bom humor contagiante. Após duas músicas, a artista proferiu: “Estou meio nervosa. Os brasileiros são tão musicais que parecem estar sempre criticando.” Um fã na platéia tentou acalmá-la: “Calma, relaxa, te adoro!” Sua apresentação utilizou-se de uma abordagem um pouco mais tradicional mas não menos interessante. Através de seu violão e uma aparelhagem composta por dois teclados ligados a repetidores e sintetizadores, Juana grava o que tocou e coloca o trecho em repetição. A partir disso as músicas vão crescendo, sobrepondo diversos riffs uns aos outros. O controle de todos os instrumentos é feito através de pedais. Essa parafernalha sendo controlada por Juana leva à comparação dela à “banda de uma pessoa só”. Sua voz é suave, quase sussurrada, mas em certos momentos utiliza-a para criar ritmos, frases ininteligíveis e barulhos diversos. Seu despojamento e a disposição em encantar a platéia encontraram o ápice na frase da argentina ao encerrar uma de suas canções: “Brigadinha!” V.S., 19, celebra a realização de um sonho: “Tinha este desejo absurdo de ver a Joanna e a Juana e, em dois dias seguidos, consegui realizar ambos! Quase não consigo acreditar.” Ela completa: “Esta abordagem mais tradicional ao folk não diminui nem um pouco o grande trabalho de Juana.” Molina nasceu em meio à um período conturbado na Argentina e ainda jovem foi levada à Paris. Lá teve contato com a música e com o teatro.

 


Juana Molina – ¿Quién?

Solitude, Vozes Femininas, pode ser considerado um evento de grande sucesso, tanto comercialmente quanto culturalmente. A grande jogada foi a apresentação de artistas mulheres que brincam com suas respectivas vozes de uma forma muito bem bolada. Seja através de loops, distorções, simulação de efeitos, ecos, os dois espetáculos foram de um bom gosto absurdo. A única ressalva foi o fato de, devido aos inúmeros instrumentos, teclados, laptops, todas as quatro artistas mantiveram uma troca de energia relativamente baixa com a platéia, com exceção de Juana Molina, que, com certeza, era a mais animada de todas. Mesmo assim, Solitude foi muito importante para introduzir no circuito musical nacional algumas vozes que abordam a sonoridade de uma forma diferenciada.

Download dos álbuns de Joanna Newsom

Bem-vindos a São Paulo

Por Manuela Azenha

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A idéia do documentário “Bem-vindo a São Paulo” foi tida no aniversário de 450 anos da cidade e mostra como ela é vista por alguns diretores estrangeiros. Os organizadores da Mostra Internacional de Cinema, Leonardo Cakoff e Renata Almeida, são os produtores do filme e é narrado por Caetano Veloso, compositor da segunda música que melhor retrata São Paulo.

São 17 episódios, cada um de um diretor, que representam partes da maior metrópole do Brasil. Os diretores convidados foram:, Wolfgang Becker , Maria de Medeiros, Hanna Elias, Amos Gitai, Mika Kaurismäki, Jim McBride, Phillip Noyce, Ming-liang Tsai, Andrea Vecchiato, Caetano Veloso, Yoshishige Yoshida, Ash, Mercedes Moncada. Todos participam da 31ª Mostra Internacional de Cinema.

O documentário é uma colagem de momentos que vai desde um ensaio da Vai-vai à entrevista com uma garçonete japonesa da Liberdade, passando por um retrato do Minhocão.Tenta captar as variadas faces da cidade que reúne mais de 11 milhões de pessoas com diferentes culturas, nacionalidades, jeitos e pensamentos.

O Marilyn Manco

Por Caio Zinet 

O cantor norte-americano Marilyn Manson veio ao Brasil para uma série de três apresentações. A primeira (25/09) no Rio de Janeiro na Fundição Progresso, a segunda (26/09) na Via Funchal em São Paulo e a última (27/09) no VMB (Video Music Brasil). O Polêmico roqueiro, no entanto não empolgou, tanto no Rio quanto em São Paulo

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    Os shows de Manson foram curtos, em média 80 minutos, com apenas 13 músicas e cheio de interrupções para o astro trocar de roupa. Os shows (tanto no Rio quanto em São Paulo) chegaram em alguns momentos a empolgar a platéia como quando Manson cantou “Disposable Teens”.O público ia ao delírio quando o roqueiro segurava a genitália, mas quando a platéia finalmente começou a se empolgar o show acabou, ficou um clima geral de frustração.     O ápice da passagem do astro internacional foi no VMB quando ele brigou com um cinegrafista da MTV que tentava filma-lo no camarim. Manson gritou”Fuck off …Fuck off”algo como saia daqui em português.A estrela tinha um acordo com a MTV no qual não permitia filmagem de bastidores, o cinegrafista desconhecia tal acordo.Superado o incidente Manson foi ao palco e cantou “” sem novamente empolgar.A passagem de Marilyn Manson merece apenas um adjetivo: morna..

Descobrindo Clarice Lispector

Por Jaqueline Ogliari

“Ver é a pura loucura do corpo”. Uma das frases de Água Viva abre a grande exposição temporária Clarice Lispector – A hora da estrela, no Museu da Língua Portuguesa, em comemoração de um ano de funcionamento. Apesar de fazer trinta anos de sua morte, Clarice marca sua eterna presença na literatura brasileira. Nasceu na Ucrânia, em 1920, mas é considerada uma das melhores escritoras brasileiras, e lutou por sua cidadania com bravura e sensibilidade. Escreveu obras inesquecíveis, como A paixão segundo G.H., A maçã no escuro e A hora da estrela.

O museu é conhecido pela disposição moderna de seu acervo e pela interatividade que os visitantes podem ter com ele. Ao entrar no ambiente em que está a exposição, deparamo-nos com uma sala escura, com várias imagens da escritora na parede, e atrás frases de seus livros. Olhamos cada uma como se estivéssemos olhando para dentro da própria Clarice – talvez fosse essa mesma a intenção. Depois, há uma outra salinha, com mais frases da escritora grifadas nas paredes brancas, e um colchão disposto no meio também com uma frase. Seguindo a exposição, entramos em outro espaço com quadrados nas paredes tampados com vidro; logo após este há mais um ambiente escuro, mais frases grifadas na parede e um cubículo de espelho ao meio com as cidades pelas quais Clarice passou.

Após conhecer um pouco das obras de Clarice, há um ambiente enorme com várias (muitas mesmo) gavetas envolvendo as paredes. Algumas delas são possíveis de se abrir, e dentro encontramos documentos, livros, fotos, publicações e cartas – tudo sobre a vida da escritora. É bastante agradável abrir uma por uma, olhar as fotos, ler as cartas escritas à máquina ou ao próprio punho de Clarice e mergulhar no seu mundo cheio de mistérios. “Com o perdão da palavra, sou um mistério para mim”, segundo ela própria.

No meio desse espaço cheio de gavetas, há um outro menor com paredes brancas, e uma frase do livro A paixão segundo G.H.. Quando você entra na sala, depois de ler a frase, descobre que há uma barata gigante projetada ao fundo. Ao percorrer a exposição, fazemos descobertas como essas, e muitas vezes nos colocamos no lugar de suas personagens.

Inserir o público no mundo particular de Clarice Lispector não é nada simples. O Museu da Língua Portuguesa cumpre a missão de desvendar os enigmas de sua vida, “a explicação do enigma é a repetição do enigma”. A exposição foi prorrogada até 14 de outubro, para que muitos ainda possam conhecer e desbravar a vida e a obra enriquecedoras de Clarice.

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