Arquivo paraSetembro 24, 2007

ENCAIXOTADO NO ESQUECIMENTO

por Estevão Bittencourt

Poucos são aqueles que, ao serem perguntados quem é José Mojica Martins, responderiam corretamente. No máximo, dizem que é o Zé do Caixão, seu personagem mais famoso. É daí que surgiu a idéia de André Barcinski e Ivan Finotti para escrever a biografia do homem por trás do personagem, que por mais que não seja conhecido como deve no Brasil, garantiu reconhecimento exteriormente. Maldito – A Vida e o Cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão (Editora 34; 448 páginas) esmiúça desde o nascimento de um dos mais insólitos cineastas brasileiros.

José Mojica Martins

Logo quando era criança, já mostrava que tinha talento. Após passar a infância lendo gibis, vendo filmes no cinema em que o pai trabalhava, brincando de teatro de bonecos e montando peças com fantasias feitas de papelão e tecido, ganhou aos 12 anos uma câmera V-8 e, a partir daí, não parou mais de fazer cinema. Tornou-se autodidata e chegou até mesmo a montar uma escola de cinema em sua vizinhança. Especializou-se no terror escatológico, ou mais conhecido como terror trash e logo cedo começou a fazer filmes amadores. Foi em sua cidade natal, São Paulo, que criou em 1956 uma escola de atores e em 1964 uma sinagoga no Brás.

O que poucos sabem também é que, durante a ditadura militar, seus filmes foram vítimas de censura política, pois alegavam que traziam uma mensagem política camuflada. Basta ver um de seus filmes corretamente que é possível ver que não há nada político, apenas o mal sendo castigado no final, porém não foi assim que a censura o viu. Chegaram até mesmo a prendê-lo, assim como sua fita O Ritual dos Sádicos que chegou a ficar 20 anos presa.

Além de seus problemas com a censura, o cineasta também passava por problemas econômicos. Num país em que cineastas fizeram sua fortuna com o dinheiro público e ainda conseguem reclamar do governo, José Mojica Martins, sem contar com ajuda oficial, dirigiu mais de trinta longas-metragens. Aliás, a única coisa que o Estado Brasileiro fez por ele foi prejudicá-lo, censurando e mutilando sua obra. Apenas no ano passado, que ganhou R$ 1 milhão do Concurso Público de Apoio a Obras Cinematografias de Baixo orçamento, da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, o que o levará a criar seu filme mais caro.

Não é com o papel de mostrar que seu cinema é maravilhoso que o livro foi feito, mas que tem talento, como pode ser percebido não só nessa área, mas também em muitas outras, como televisão, rádio, literatura, revistas em quadrinhos, teatro e fotonovelas. Porém é possível prever que qualquer tipo de (re)conhecimento no Brasil só terá alguma chance após o lançamento do filme que fechará a trilogia do Zé do Caixão. Isso se não prevalecer seu lado folclórico e suas unhas grandes na cabeça das pessoas.